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EUA: O trekking do filme 127 Horas na vida real

Lindas paisagens, pinturas rupestres e o perigo presente nesta trilha desafiadora


Em 2003, um aventureiro americano chamado Aron Ralston se meteu num lugar inóspito chamado Bluejohn Canyon. Para quem já viu o filme 127 Horas sabe o que aconteceu.  Depois de pesquisar bastante, consegui me orientar e chegar lá. Mais de 1 hora de estrada de terra e 8 km andando nas terras áridas do interior do estado do Utah, nos EUA. No início da trilha há um letreiro com avisos que desencorajam as pessoas de tentar...


COMO CHEGAR?

Chegar no Bluejohn Canyon não é simples, então reservei um dia completo para essa aventura. Depois de pernoitar dentro do carro na cidade de Hanksville, segui, assim que clareou, pelo norte na estrada UT-24 por 25 km (16 milhas) até chegar na placa de entrada no parque. Essa área toda pertence ao Parque Nacional Canyonlands cujo acesso principal é através de Moab, no lado oposto do cânion, logo, entrei por um lado isolado do parque e não há controle de entrada ou taxas a pagar.

Entrada pelo acesso remoto do Canyonlands National Park


O Bluejohn Canyon não pertence ao parque Canyonlands, apenas o seu acesso mais fácil acontece por lá. Na verdade, o primeiro objetivo é chegar no início da trilha do Horseshoe Canyon. A partir da entrada, são 48 km (30 milhas) por uma estrada de terra que não precisou de 4x4 para chegar lá. Todo esse percurso está no Google Maps.

O sol nasce e eu já estava na estrada de terra rumo ao início da trilha


O início da trilha para o interior do Horseshoe Canyon possui uma área de estacionamento rústico. Apesar disso, tem um banheiro químico bem estruturado e um quadro com informações sobre a trilha. Vários avisos reforçam sobre a importância de fazer a trilha levando bastante água, sendo recomendado 1 galão de água por pessoa (3,7 litros). Um aviso também fala sobre o Bluejohn Canyon, afirmando que não faz parte de Canyonlands e desencoraja fazer a trilha, dizendo que é uma trilha técnica, de difícil resgate, que alaga na chuva, que demora mais de 8 horas, etc., etc., etc.... e conclui que cada pessoa deve assumir o próprio risco se resolver ir até la!

A trilha inicia atrás da placa de Canyonlands


Banheiro químico com papel higiênico no meio do nada!


Avisos reforçam sobre o perigo de insolação


É recomendado levar pelo menos 1 galão (3,7 litros) por pessoa


Aviso desencorajador sobre o Bluejohn Canyon. Não funcionou comigo!


A principal atração dessa trilha são as raras pinturas rupestres localizadas na Great Gallery Rock Art e algumas placas informam sobre isso. Perto do mural de avisos existe uma caixa com um livro de registro que pede que o trilheiro escreva seu nome, quantidade de acompanhantes, origem e dados como, por exemplo, a data/hora que iniciou a trilha.

Placas explicam a origem das figuras rupestres


Livro de controle de acesso a trilha


HORSESHOE CANYON

Em 1971 a área do Horseshoe Canyon foi adicionada ao Canyonlands National Park para a proteção da coleção de arte rupestre. A melhor época para trilhar por ali é durante a primavera e o outono, quando as temperaturas são mais amenas. Como eu não teria outra oportunidade, encarei a trilha no verão mesmo. Minha sorte foi que o dia amanheceu nublado. É recomendado levar protetor solar, roupas que protejam a pele e chapéu.

Descida da trilha em direção ao Horseshoe Canyon


Cerca de 200 metros de desnível


Isolamento total, não encontrei nenhuma pessoa naquela área


Uma placa na descida lembra que vandalizar as pinturas rupestres é crime


Ao se aproximar do cânion, a vista fica cada vez mais sensacional


Chegada ao interior do cânion


HIGH GALLERY

Ao descer até o cânion, a trilha segue na direção sul. Levei um aparelho GPS com a tracklog da trilha para a Great Gallery Rock Art, veja aqui no site Wickloc. A trilha passa por 4 paredes com incríveis pinturas rupestres que teriam sido feitas pelos antigos índios da região. Passados 3 km de trilha, a primeira delas é a High Gallery (galeria alta) que fica localizada no alto da parede, lado esquerdo do cânion, e representa figuras humanas.

Uma trilha lateral na mata acessa a primeira galeria de desenhos 


Os pictogramas vermelhos no alto da parede


As figuras ficam no alto e estão desbotadas


Essa figura tem uma "ferradura" na barriga. Seria por causa disso a origem do nome do cânion?


A erosão da rocha pode acabar com a arte rupestre


HORSESHOE SHELTER GALLERY

Um pouco além, no lado oposto (à direita) do cânion, entrando por uma trilha curta, está a segunda galeria cujo nome seria traduzido como "Abrigos em Ferradura" por estar protegido por uma saliência do paredão. Os desenhos são menores e representam várias imagens de animais como alces e bisões. Também existe um interessante painel com registro de caçadores. Além disso, incluem figuras estranhas, dentre elas, um animal que parece um cachorro.  

O Horseshoe Shelter Gallery é composto de figuras menores


Seria um cachorro? E o que seriam as outras figuras?


Nos arredores do painel principal há outras representações 


Registro de exploradores antigos que estiveram ali


Um estranho animal e um homem


E esse ser com chifres (ou antenas) o que seria?


Interessante representação da atividade de caça dos antigos


ALCOVE GALLERY

Continuando pela trilha no centro do cânion por mais 1 km (4 km desde o início da trilha), se chega na galeria da grande alcova, que fica no lado direito da parede do cânion e protegidos por uma grande reentrância na rocha. Os pictogramas vermelhos estão concentrados em dois pontos e já estão um pouco desgastados. Representam figuras humanoides estranhas. 

Mais 1 km de caminhada pelo centro do cânion


Algumas reentrâncias nas paredes servem de abrigo do sol


Figuras humanoides estranhas na galeria da Alcova


Detalhe da tinta desgastada com o tempo


O que seria este ser com chifres na cabeça?


Em outra extremidade da parede, diversos seres de todos os tamanhos


Chifres, antenas ou enfeites na cabeça?


GREAT GALLERY ROCK ART

Desde a galeria da Alcova são mais 2 km de caminhada (6 km desde o início da trilha) para chegar no lugar mais incrível: a Great Gallery Rock Art, um grande painel de pictogramas e petróglifos distribuídos por 60 m e localizados a uma altura de 4,5 m, feitos entre 2.000 a 4.000 anos atrás. Ao todo são mais de 80 imagens, incluindo animais e alguns objetos não identificáveis, retratados no painel em vários tons de vermelho, branco e marrom. Existem 20 figuras feitas em tamanho real, sem braços e nem pernas, algumas com mais de 2 m de altura! O mais impressionante é que esses desenhos são mais elaborados e representam serem diferentes das demais formas humanas.

Figura com cerca de 2 metros de altura diferente das demais formas humanas


Animais e caçadores sendo observados pelos enigmáticos seres


Figuras com acabamentos elaborados ao lado de figuras humanas normais


A figura da direita tem desenho de animais no peito


Figuras com "roupas" cheias de detalhes e cabeças que lembram coroas


Esta figura possui 2 figuras menores desenhadas no ventre


Paredão com as 20 principais figuras


Essa galeria de pinturas rupestres é famosa na arqueologia americana e existe um mistério sobre o que representariam. Talvez quem desenhou queria diferenciar os humanos desses seres, talvez por representarem deuses, espíritos ou... extraterrestres! Sim, os entusiastas da teorias dos "antigos astronautas" defendem que seriam seres de outros planetas que tiveram contato com os povos antigos. Há outra coisa impressionante ali: binóculos são deixados para ajudar na observação dos desenhos e ninguém rouba!!! E se fosse no Brasil...?

Representaria um deus sendo recebido pelos humanos?


No local há um binóculo deixado para observação dos desenhos


Antes de continuar a jornada, pausa para o almoço!


BLUEJOHN CANYON

A segunda etapa da aventura seria mais incerta e com certo grau de risco. Ao planejar a viagem não encontrei na internet nenhum tracklog para GPS que guiasse até o Bluejohn Canyon, local do acidente que inspirou o filme 127 Horas. A única informação que eu consegui foi a localização no Google Maps (clique lo link para ver). Analisando a imagem de satélite, cheguei a conclusão que bastava caminhar pelo interior do cânion por mais 3 km a partir da Great Gallery. Não havia trilha demarcada nem vestígios de pegadas humanas, pelo contrário, encontrei várias pegadas de animais selvagens.

Salvei o print do Google Maps pois não havia sinal de internet lá


Ao seguir o cânion para a área selvagem, avistem um casal de veados


O animal ficou me observando curioso, parecia que nunca viu um humano por ali


Também existem burros selvagens habitando no cânion


A natureza cria sua arte com a erosão


Onde tem água, tem vida...


... e encontrei várias pegadas de animais selvagens. Seriam lobos?


Em certo ponto existe uma cerca de madeira demarcando o final da área de jurisdição do Canyonlands National Park e início da área do Bluejohn Canyon. Passei pela cerca e caminhei um pouco até chegar na bifurcação que divide o cânion em duas partes. 

Entrada na região de Bluejohn Canyon


Subi na elevação que divide o cânion


127 HORAS

Apesar de ter explorado a região, eu não achei o local exato onde Aron Ralston teria caído, afinal, ele caiu numa fenda de uma altura de 20 metros do chão. A pedra que escalava se soltou e esmagou o braço dele prendendo-o contra a parede. Ralston passou 127 horas com apenas 350 ml de água num local isolado sem ter avisado a alguém que estaria naquela trilha. Teve que amputar o próprio braço, escalar a fenda com apenas uma mão e caminhar pelo sol escaldante até achar socorro. O que o filme não mostra é que seu antebraço amputado foi recolhido e teria demandado o trabalho de 13 homens, um guincho e uma furadeira para removê-lo da pedra de 500 kg. O membro de Aron então foi cremado e as cinzas foram-lhe entregues.

O filme 127 Horas é uma história real e uma lição para os praticantes de trekking 


RETORNO

Os 8 km da volta foram desgastantes, principalmente porque as nuvens sumiram e o sol da tarde castigou. Além do calor, o clima seco é sentido através da desidratação das vias aéreas. O pior trecho foi a subida final do cânion que parecia que não acabava. Quando cheguei no carro tive que ligar o ar condicionado e ficar um tempo deitado com os pés para o alto. Pelo menos a missão foi cumprida e eu consegui retornar do Bluejohn Canyon com os dois braços no lugar! 😅

Retorno por 8 km no sol escaldante do deserto


As pinturas rupestres e os burros selvagens que moram no cânion


MEU ROTEIRO

Anterior: MONUMENT VALLEY

Roteiro completo: MISSÃO OESTE AMERICANO



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Sobre o autor

Sobre o autor
Renan tem 36 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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