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Argentina: Vivos - O Milagre dos Andes - 3 dias de trekking sem guia

Relato detalhado da trilha realizada sem agências e sem guia


O local onde o avião do vôo Força Aérea Uruguaia 571 caiu nos anos 70 com uma equipe de rugby é um local de difícil acesso. Os sobreviventes passaram 72 dias esperando o gelo derreter para tentar sair caminhando em busca de ajuda, e o resgate ocorreu no dia 23 de dezembro de 1972. Dado o exemplo do que aconteceu na época, a trilha só é acessível nos meses de janeiro, fevereiro até meados de março. Depois disso o gelo complica e se torna perigosa a caminhada. Porém, mesmo nos meses sem gelo, o ambiente é hostil pois tem um clima frio e desértico, tendo ar bastante seco. Além disso, o caminho passa por pontos em que a água do degelo cria cursos de rios caudalosos que, apesar de ser possível atravessar a pé pois são rasos, muitas vezes são utilizados cavalos para a travessia. Para se preparar para esse trekking leia as dicas do post PLANEJAMENTO, DICAS E CUSTOS.


TRASLADO ATÉ O INÍCIO DA TRILHA

Pela manhã, o responsável do estabelecimento do parador El Chacallal conseguiu vaga em uma caminhonete S-10 que estava indo para o ponto de início do trekking, mas não era carona, eu teria que pagar 1500 pesos só de ida. Não existe transporte regular até lá e somente carros com tração 4x4 são recomendados para transitar naquela estrada de terra com pedras e algumas poças e riachos no caminho. São 60 km de deslocamento que demora entre 2 h e 2 h 30 min.

A maioria das excursões faz uma parada no El Chacallal


Consegui uma vaga no carro de dois argentinos que estavam junto com uma excursão


A estrada é bem precária, sendo recomendada apenas para veículos 4x4


A trilha começa a cerca de 2 km do hotel abandonado


DIA 1


CAMINHADA ATÉ O ACAMPAMENTO BARROSO

O trekking começa no Puesto Soler, local onde as agências desembarcam seus clientes e iniciam a caminhada guiada. Os equipamentos, mantimentos e até alguns turistas são deslocados por cavalos adaptados à altitude, chamados de Criollos de Cordillera. Esses cavalos são guiados pelos baqueanos (ou vaqueanos = vaqueiros). Dali até o avião são cerca de 30 km, dos quais são 16 km de caminhada neste primeiro dia até o Acampamento Barroso.

A caminhada começa no Puesto Soler


Os cavalos Criollos de Cordillera carregam material e algumas pessoas dispostas a pagar


Comecei a caminhada por volta das 12h00. O primeiro desafio é atravessar o Rio Atuel que se divide em 6 braços e a água bate na cintura. É possível cruzar a pé buscando as partes menos profundas e caudalosas, seguindo a recomendação do "puesteros de la zona" ou observando em que ponto as agências atravessam. Alguns fazem à cavalo, podendo negociar um preço para uso do cavalo para atravessar (eu ouvi que cobram 100 pesos, mas não usei).

Dicas para atravessar os rios sem cavalo:

1) Levar sapatilha de mergulho e uma bermuda de lycra para não molhar as botas e a calça. Toda travessia eu tirava as botas e a calça, colocando dentro da mochila. Eu levei apenas meia de neoprene e sofri um pouco ao pisar nas pedrinhas do fundo do rio.

2) Levar bastão de caminhada para apoiar o corpo contra a correnteza do rio. Eu não levei bastão, em alguns pontos eu até usei um emprestado, porém é possível também passar sem ele, mas tem que ir bem devagar e prestando a atenção aonde pisa para não ser derrubado

3) Procurar atravessar os rios antes das 14h pois depois deste horário o degelo aumenta o volume da água e dificulta o deslocamento.

Travessia do Rio Atuel


A cada travessia eu colocava as meias de neoprene para não molhar as botas


Depois de atravessar o rio, ainda se caminha uns 2 km por um solo pedregoso até começar a subir. Ali existe uma placa avisando que a área é de propriedade privada, sendo necessário ter a permissão (veja no link sobre planejamento). A partir dessa placa são 4 km até chegar no Arroyo Rosado, o segundo ponto de travessia de um rio de degelo.

Uma placa avisa sobre a entrada em área privada da empresa Las Leñas


Depois da área plana do Rio Atuel começa uma subida leve


Depois da subida a trilha continua por uma região alta, com pouca inclinação


A travessia do Arroyo Rosado não chega a ser tão complicada quanto o Rio Atuel, sendo um trecho bem curto. Depois de cruzar o rio é preciso ter atenção pois o caminho correto sobe pela direita porque o caminho antigo está desmoronado. Eu não prestei a atenção e acabei seguindo em frente e pegando a trilha antiga, o que me fez ter que subir por um caminho íngreme para voltar à trilha certa.

Travessia do Arroyo Rosado


Depois do cruzamento do Arroyo Rosado, a trilha continua subindo pela direita


À esquerda estará o Rio barroso, lá embaixo


Segue-se por uns 5 km sempre com o Rio Barroso à esquerda pelas partes altas da montanha até descer ao ponto em que acontece a terceira e última travessia por dentro da água. Do outro lado do rio está o Acampamento Barroso. Cheguei por volta das 19h00 (ainda claro naquela época).

A caminhada passa pela margem alta do Rio Barroso


A trilha chega no ponto mais baixo do terreno onde acontece a travessia. Do outro lado está o acampamento


Escolhi um local isolado entre as pedras do Acampamento Barroso


DIA 2

O AVIÃO DOS URUGUAIOS

Este é o principal dia do trekking. São 10 km (cerca de 6 horas) até chegar no local do acidente aéreo. Depois de sair do acampamento, a trilha sobe até uma área de pasto. Ali havia uma bonita lagoa com patos. A partir daquele ponto a trilha segue pelo Vale das Lágrimas, um ambiente árido e bem exótico. O clima seco daquela região resseca a garganta e dá bastante sede.

Amanhecer no Acampamento Barroso


 Região de pasto usada pelos baqueanos que vivem no acampamento


A trilha passa por essa bela lagoa


O desértico Vale das Lágrimas


Eu não levei muita água quando iniciei a trilha naquele dia e esperei achar um lugar para abastecer minha squeeze. Foi então que achei um oásis no meio daquelas montanhas desérticas. O lugar tinha água corrente e cristalina. Parecia o cenário dos Teletubies!

Oásis dos Teletubies 


Depois de passar por mais uma lagoa e seguir por um longo trecho de um caminho pedregoso e árido, cheguei no Rio das Lágrimas. Também é possível cruzar a pé apesar de ser cheio de pedras e caudaloso, porém esse rio é muito gelado! Cheguei a ficar com as mãos e os pés dormentes de tão frio.

 Longo caminho desértico e pedregoso até o rio


Travessia do Rio das Lágrimas


Depois de cruzar o rio, começa a pior parte: uma subida que vai ficando cada vez íngreme, até o trecho final que segue em zig zag. Foram cerca de 2 horas de subida já acima dos 3.000 metros de altitude em um ambiente empoeirado e seco. É preciso ter paciência.

A trilha sobre, ficando cada vez mais íngreme


O MEMORIAL

Enfim acontece a chegada no local onde está o memorial às vítimas do acidente. Ali teriam sido enterrados os restos mortais daqueles que não sobreviveram à queda do avião em 13 de outubro de 1972 e demais mortos durante o período em que permaneceram lá. No memorial estão os nomes dos mortos, os nomes dos sobreviventes e uma mensagem que diz: "Convidamos a todos os que creem na vida, de todas as religiões, a pensar que um Ser Superior guia nossos caminhos, ainda que às vezes seja tão difícil compreendê-lo." No lugar onde os mortos teriam sido enterrados existe uma cruz de ferro e vários objetos pessoais das vítimas que foram encontrados ou deixados ali por visitantes e peregrinos. Também existem partes do avião. Naquele ponto são 3.500 metros de altitude.

Placa que informa sobre o local em memória dos falecidos


Memorial alusivo às vítimas do acidente aéreo ocorrido em 1972


Após 10 dias do acidente, as equipes de resgate argentinas, uruguaias e chilenas decidiram abandonar a busca pois o tempo ruim e a cor branca do avião em meio ao gelo tornou impossível encontrar os destroços. Naquelas condições ninguém acreditava que eles teriam sobrevivido. Os sobreviventes ouviram pelo rádio do avião a notícia do cancelamento das buscas. Tiveram que suportar temperaturas de 30 graus abaixo de zero. E para piorar a situação, dos 29 que estavam vivos após a queda do avião, 8 foram mortos por uma avalanche que varreu o seu abrigo.

Cruz no ponto onde os restos mortais teriam sido enterrados


DESTROÇOS DO AVIÃO

O local exato da queda do avião fica a cerca de 800 metros acima de onde estão hoje enterrados os restos mortais. O local do memorial foi escolhido pois fica fora da zona com risco de avalanches. Após o resgate, a fuselagem foi queimada com gasolina para impedir curiosos, e o que restou foi levado para o Museu dos Andes de Montevidéu, no Uruguai, ou permaneceu em uma pilha de destroços perto do memorial. Eu ainda subi até o local original da queda, mesmo sendo um lugar perigoso para se caminhar pois existem várias pedras soltas. Ali é possível observar o trem de pouso da aeronave e, mais acima, está um pedaço da fuselagem ainda bem conservado apesar de quase 50 anos no local.

Partes do avião Força Aérea Uruguaia 571


 Essa parte da asa do avião está próximo do memorial, em um local mais acessível


Esse pedaço da fuselagem está numa região mais complicada de se aproximar


ENCONTRO INESPERADO

Depois de sobreviver por 72 dias naquele ambiente gelado e sem comida, o que os forçou a se alimentar da carne dos cadáveres para viver, dois dos sobrevivente escalaram a montanha pensado que do outro lado estavam as planícies chilenas, mas se enganaram: havia mais montanhas. Depois de 10 dias andando e dormindo em um saco de dormir improvisado feito com o estofado do avião, conseguiram achar um arriero (um gaúcho chileno que vivia naquelas terras criando gado). Depois de explicar a ele o que tinha acontecido, o homem cavalgou por 120 km até um posto do Exército para buscar ajuda. Foi então que o resgate chegou e os 16 sobreviventes conseguiram seguir suas vidas.

 Missa realizada no local de sepultamento das vítimas


Eu estava esperando as agências descerem para fazer um vôo de drone a partir do local do memorial. Foi então que um homem se aproximou e me pediu para sair dali pois aconteceria uma missa com a presença de um dos sobreviventes. Eu respeitei o pedido e deixei o local, mas um pouco contrariado pois quebrou meu planejamento. Estava ainda meio atordoado por causa da altitude, mas aos poucos foi "caindo a ficha" do que eu estava presenciando: era a equipe de rugby atual que, 47 anos depois do acidente, se reunia pela primeira vez ali para prestar uma homenagem aos mortos. Eu fiquei frustrado porque queria conhecer o sobrevivente, mas ele já havia descido de cavalo. Quando eu cheguei na área do Acampamento Barroso, uma surpresa: ele estava lá! Era Gustavo Zerbino. Depois de tirar fotos com as pessoas, ele parou para me cumprimentar. Eu estava diante de um personagem real daquele acontecimento histórico.

Equipe atual do time Old Christians de rugby do Uruguai


Meu encontro com Gustavo Zerbino, um dos 16 sobreviventes dos Andes


DIA 3

O RETORNO

Na manhã seguinte se iniciou o retorno. Caminhei os 16 km de volta, atravessando novamente os rios Barroso, Rosado e Atuel. No final, Gustavo Zerbino passou por mim novamente a cavalo e me perguntou de onde eu era. Respondi que era do Brasil. Então ele perguntou se eu estava cansado. Respondi que sim. Ele então me tranquilizou dizendo que já estava chegando ao final, e partiu em seu cavalo. Ao finalizar a trilha, descobri que minha carona da ida havia me abandonado.

Acampamento e Rio Barroso pela manhã


HOTEL TERMAL EL SOSNEADO

Aproveitei que não tinha como voltar e caminhei por cerca de 2 km até chegar às ruínas do Hotel Termal El Sosneado. Apesar de poucos registros históricos, sabe-se que o hotel começou a funcionar em 1938, construído pela South American Hotel Company, e fechou em 1953. Possuía sua própria usina hidrelétrica, cujas ruínas ainda podem ser vistas. As águas termais eram canalizadas até os quartos. O motivo pelo qual fechou é um mistério: A primeira hipótese é que, com a mudança das leis trabalhistas, os funcionários exigiam pagamento de salário ao longo do ano e não apenas nos quatro meses do ano em que o hotel funcionava. Outra hipótese é que foi destruído por uma avalanche.

Ruínas do Hotel Termas El Sosneado 


Piscina termal do hotel


Algumas pessoas acampam na área do hotel para usar a piscina termal


RETORNO

Fiquei um tempo pedindo carona na estrada em frente ao hotel e consegui uma vaga na caçamba de uma caminhonete que estava dando apoio a um grupo de motociclistas de off road. Cheguei em El Sosneado às 18h00 e, depois de limpar a poeira, fui para o parador da escola esperar o ônibus da empresa CATA Internacional. As opções de horários El Sosneado x Mendoza eram: 1h40 (chegada às 7h15); 15h40 (chegada às 21h15) e 19h25 (chegada às 01h00). Peguei a última opção, fazendo conexão em San rafael, e cheguei no Terminal de Mendoza às 01h00. Dormi no banco da rodoviária até o dia clarear e partir para o aeroporto. Antes de embarcar para o Brasil ainda comi um sanduíche engrenado que valeu por um prato de comida. Enfim, missão cumprida!

Retorno na caçamba de uma caminhonete comendo poeira


Nada como uma noite confortável depois de 3 dias de trekking 


Prato para coroar a missão cumprida antes do embarque para o Brasil


TREKKING

Dicas para planejamento e os custos do trekking até o avião uruguaio estão no post Vivos - O Milagre dos Andes - Planejamento, dicas e custos.


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Sobre o autor

Sobre o autor
Renan tem 37 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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