Egito: Alexandria e as maravilhas do mundo

O lugar que abrigou a maior biblioteca do mundo e o farol das maravilhas antigas


Antes mesmo de me tornar um amante de história antiga já havia escutado sobre Alexandria na escola quando era criança. A história de várias culturas antigas cita a cidade que já foi uma das mais modernas de sua época, concentrando o que tinha de melhor do conhecimento humano, seja pela sua biblioteca ou pela arquitetura que projetou uma das 7 maravilhas do mundo antigo. Hoje em dia poucos a conhecem, não sendo rota turística, porém eu não poderia sair do Egito sem passar por lá.


COMO CHEGAR?

Durante minha passagem por Sharm el-Sheikh, assim que cheguei, comprei passagem na empresa East Delta em ônibus noturno para Alexandria. A passagem custou 120 EGP (agosto 2014) e tinha disponível em dois horários (9h00 e 21h00). A viagem durou em torno de 8 horas as quais eu fui dormindo (exceto na passagem pelo Canal de Suez em que todo o ônibus tem que ser revistado). O estranho foi ter que passar as 8 horas com a televisão do ônibus ligada em volume máximo de um filme indiano com dublagem árabe!

Minha base seria um hotel no centro da cidade


Eu passaria menos de 24 h em Alexandria (sem pernoitar), logo procurei um guarda bagagem na rodoviária. Surpresa: Não havia guarda bagagem! Precisei seguir ao centro da cidade arrumar um hotel barato para me hospedar. Durante meu planejamento havia lido em outros blogs que os táxis de Alexandria não tinham taxímetro, pois acabei me ferrando, pois tinham sim... Como eu não sabia, acabei negociando um valor e paguei 20 EGP para chegar no centro. O táxi deixou o taxímetro ligado e, no aparelho, marcou apenas 10 EGP a corrida, mas como eu já havia fechado negócio, paguei mais caro.

Prédios velhos no centro de Alexandria


O centro era aquele lugar com construções gigantes mas que pararam no tempo, tudo velho e sem conservação. Achei o barato Hotel Triomphe e subi por aqueles elevadores antigos. Fui recepcionado por um senhor mau humorado, conservador, que provavelmente não gostava de estrangeiros. O engraçado foi ver a mudança de humor quando ele viu meu passaporte brasileiro e vibrou: - Pelé!

O Alcorão e outros livros religiosos na sala de estar do hotel bem conservador


CAFÉ BRASILEIRO

Deixei minhas coisas no hotel e não perdi tempo para explorar a cidade, mas antes eu teria que comer algo. Meu café da manhã seria matando as saudades de casa no Brazilian Coffee Stores, uma casa de café inspirada no café brasileiro, um ambiente de apreciação. Apesar de eu não gostar de café, vale a pena conhecer o lugar e ver a importância que eles dão ao Brasil. O interessante é que o dono não é brasileiro, e sim egípcio!

O Brasil (principalmente seu futebol) é reverenciado neste Coffee Shop


É quase um centro cultural, com máquinas, sacos de café, fotos antigas, etc.


Ao fundo, um mosaico do Ronaldinho Gaúcho


Até a caixinha que traz a conta é tematizada com a bandeira brasileira


PORTO DE ALEXANDRIA

O próximo passo seria conhecer o local do antigo Farol de Alexandria e para chegar lá, segui caminhando 3 km pelo litoral. Um calçadão que segue pela orla da baía que abrigou o milenar porto da cidade fundada por Alexandre, o Grande. Ao longo do itinerário existem monumentos históricos, construções antigas, praias, mesquitas e uma vista privilegiada da Cidadela de Qaitbay, o local do antigo farol.

Comecei a caminhada na Praça Saad Zaghrlol


Litoral do Mar Mediterrâneo onde passaram civilizações da Europa, Africa e Ásia


Na extremidade oeste da baía ficava o Farol de Alexandria


As construções mesclam a beleza da arquitetura antiga e a decadência atual da cidade


Praça El Gondy El Maghool em homenagem ao "soldado desconhecido"


Edifício histórico da Corte de Alexandria


Uma pequena faixa de areia é o suficiente para surgir uma praia como qualquer outra


Depois da praia, numa rua paralela ao litoral, está a Mesquita Abou El Abbas El Morsy e a Mesquita Yaqoot Elaarsh, lado a lado


UMA DAS 7 MARAVILHAS ANTIGAS: O FAROL

Enfim cheguei no local em que existiu uma das 7 Maravilhas do Mundo, o Farol de Alexandria. Era octogonal e feito de mármore sobre uma base quadrada, que media entre 115 e 150 metros de altura. Por mais de cinco séculos foi considerada uma das mais altas estruturas feitas pelo homem. Sua iluminação poderia ser vista a 50 km de distância. Porém, em 1375 ocorreu um terremoto que destruiu o farol e em 1477 foi construído o Forte Qaitbay no lugar de sua base.

Ali existiu uma das 7 maravilhas do mundo antigo


Este Forte (ou Cidadela, em árabe) protegeu a cidade de ataques depois da conquista árabe


O Sultão Al-Ashraf Sayf al-Din Qa'it Bay (ufa, nome complicado!) construiu este Forte (ou cidadela como chamado pelos árabes) para proteger a cidade dos Cruzados que costumavam atacar a cidade por mar. Chegou a ser demolida e reconstruída duas vezes desde então.

Foi construído em 2 anos com as pedras das ruínas do farol


Corredores da Cidadela


As salas guardavam paiol de munição e armamento


Buraco acima do portão de entrada da fortaleza para derramar óleo quente nos invasores


Janelas de posição de tiro para proteger o porto


Sistema de ventilação de uma sala de moinho


A sombria área da cisterna da fortaleza


A cidadela possui uma posição estratégica para defender ataques vindos do mar


Todo o litoral da cidade pode ser observado de cima dos muros


Vista da Biblioteca de Alexandria a partir da cidadela


PILAR DE POMPÉIA

Ao sair da área da cidadela, resolvi pegar um táxi para ganhar tempo até um dos principais sítios arqueológicos de Alexandria. O local onde se encontra o Pilar de Pompéia fica mais afastado do litoral. Uma coluna de granito foi construída em homenagem ao Imperador Diocleciano, em 297 d.C., e marca um local que concentra as ruínas de vários achados arqueológicos do período greco-romano. 

A área do sítio arqueológico está cercado pela cidade


Neste complexo existia um bonito templo de Serápis


A coluna possui 25 metros de altura


Construída de granito vermelho das pedreiras de Aswan e erguida em 297 a.C.


O nome do pilar veio da crença de que o general romano Pompeu estivesse enterrado ali


Uma das esfinges que ainda permanece "inteira" no local


A maioria das esfinges perdeu a cabeça...


... exceto essa que tem uma fisionomia conhecida. De onde será que conheço?


O pilar e outras ruínas ali encontradas foram o que restou do grande Templo de Serápis. O imperador Ptolomeu buscou uma divindade que conquistasse ambos os grupos étnicos, egípcios e gregos. Alexandre, o Grande, havia tentado usar Amon para este propósito, porém este deus era mais cultuado no sul e não tinha popularidade em Alexandria. Foi escolhido como ídolo o equivalente ao deus egípcio Ápis (popular por aquela região), chamado inicialmente de Aser-hapi (ou seja, Osíris-Ápis), que depois se tornou Serápis.

A baixo da área do antigo templo existe a entrada para galerias subterrâneas


Diz a lenda que este templo tem um significado especial para os ateus porque ele teria sido desalojado pelo governo em nome da ciência. Foram transferidos para lá volumes da Biblioteca de Alexandria que não parava de crescer.

As escadas levam a templos subterrâneos


Em uma das galerias foi encontrada uma estátua em tamanho real de Ápis, o deus que seria a encarnação de Osiris em um touro


CATACUMBAS DE KOM EL-SHOKAFA

Cerca de 700 metros seguindo para a parte de trás dos muros do sítio do Pilar de Pompéia, está o caminho para as antigas catacumbas alexandrinas que são pouco conhecidas dos turistas. Minha caminhada até lá foi por ruas bem pobres, onde com certeza nenhum turista costuma andar.

Apesar da proximidade com a entrada do Pilar de Pompéia, as ruas por aqui não são nada bonitas


Cheguei na bilheteria e comprei o ingresso, um policial do sítio me conduziu até o local que iniciava a visita, foi então que as coisas não saíram como o esperado. O policial egípcio começou a apresentar as catacumbas explicando tudo como um guia. No Egito é comum os vigias dos templos usarem essa malandragem e no final cobrarem pelo "serviço" de guia. Quanto a isso eu já estava vacinado e cortava antes que acontecesse, mas um policial, fardado, com sua pistola no coldre, foi algo inesperado. Fiquei desconfortável com a situação (na verdade revoltado!) e apressei a visita para ir logo embora, nem aproveitando para ver detalhes ou fotografar (as duas imagens abaixo foram retiradas da internet). Ainda paguei 10 EGP para evitar transtornos.

Relevo do deus Anúbis usando trajes de centurião romano


Essas catacumbas, apesar de não tão conhecidas, são consideradas uma das 7 Maravilhas do Mundo Medieval. O mais interessante é que mostram figuras que misturam características das crenças egípcias, romanas, e também vestígios do cristianismo. As catacumbas possuem três níveis (andares) e estão abertas para visitação as tumbas de Selvago, Wardian e Tigran. A parte mais impressionante do sítio arqueológico é o chamado Caracalla Hall, que contém os ossos de jovens cristãos massacrados por ordem do imperador Caracalla. 

Poço com um sistema para descer as múmias em cordas


ANFITEATRO ROMANO

Como eu estava com um mapa das ruas de Alexandria, resolvi sair caminhando até o Museu Nacional. Desse jeito dá para conhecer a cidade de verdade, sem turistas, onde o povo regional vive. Fui seguindo a linha do trem elétrico até chegar na Estação Central de Alexandria. Ali do lado descobri as ruínas de um anfiteatro romano de mármore construído em II d.C.

Os trens elétricos são comuns e ligam a cidade de leste a oeste


Estação Central de Trem


Este anfiteatro possuía assentos para mais de 800 espectadores, galerias e secções com mosaicos


O Parque de Pan, o qual pertencia o anfiteatro, era rodeado por vilas romanas


MUSEU NACIONAL DE ALEXANDRIA

Continuando a caminhada, parei no Museu Nacional que possui mais de 1.800 peças arqueológicas exibidas cronologicamente. Na entrada estão os artefatos dos tempos pré-históricos e faraônicos. No primeiro andar, itens do período greco-romano. No segundo andar, o destaque são peças coptas e islâmicas. Funciona de 9h00 às 16h00 (fechado às sextas). Proibido fotografar dentro do museu.

O mais legal são os artefatos encontrados por expedições arqueológicas submarinas


BIBLIOTECA ALEXANDRINA

Encerrei minha exploração de volta ao litoral, em frente àquela que já foi a maior biblioteca do mundo. A idéia de Ptolomeu ao mandar construir a biblioteca seria concentrar ali o conhecimento de todos os povos. Ninguém sabe ao certo como foi o fim dessa biblioteca, mas se especula que ocorreu um grande incêndio.

A nova biblioteca mescla o antigo e o moderno


O objetivo da biblioteca era conter em sua coleção “os livros de todos os povos da terra"


Nunca foram encontradas ruínas da tal biblioteca, mas de acordo com desenhos antigos, parece que tinha colunas da deusa Hátor (deusa do conhecimento). Em 2002, foi construída uma moderna biblioteca no suposto lugar original da antiga, com a mesma mentalidade de ser algo inovador e que concentre o conhecimento humano. A entrada é cobrada. Para mais informações, acesse aqui o site oficial.

Funciona de domingo a quinta (11h00-19h00) e sábado (12h00-16h00). Fecha nas sextas


MAPA DO ITINERÁRIO


A única diferença de percurso foi o táxi que peguei de Qaitbay até o Pilar de Pompéia


CUSTOS (agosto 2014)

- Passagem de ônibus (Sharm el-Sheikh x Alexandria) - 120 EGP
- 4 garrafas de água 1,5 L - 20 EGP
-Táxi para hotel - 20 EGP
- Hospedagem p/ 2 pessoas - 180 EGP
- Cidadel Qaitbey (Farol) - 30 EGP
- Táxi para Pilares de Pompéia - 10 EGP
- Pilares de Pompéia - 30 EGP
- WC - 1 EGP
- Catacumbas - 40 EGP
- Gorjeta nas catacumbas - 10 EGP
- Museu Nacional de Alexandria - 40 EGP
- Almoço no KFC - 70 EGP
- Táxi para a rodoviária - 25 EGP

EGP = Egyptian Pounds (Lira egípcia)


MEU ROTEIRO

Anterior: MONTE SINAI

Roteiro completo: MISSÃO EGITO

Próxima: OÁSIS DE SIWA


Comentários
0 Comentários

0 comentários :

Postar um comentário

Anterior Proxima Página inicial

Reservas na Asia

trazy.com

Promoção! Reserve aqui

Booking.com

Se inscreva no canal

Clique aqui para seguir no

Pesquise o seu destino aqui

Booking.com

Leia Também

Notícias de Viagens

Viagens pelo Mundo

Sobre o autor

Sobre o autor
Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

Total de visualizações