Travessia Serra dos Órgãos: Do Açu à Pedra do Sino (DIA 2)

Uma aventura na travessia propriamente dita


Depois do primeiro dia de trilha até chegar ao abrigo do Açu, pernoitei na minha barraca na área demarcada para camping. Os ventos são fortes na madrugada e a barraca batia bastante, além disso, a sensação térmica por causa da ventania fez a noite fria a ponto de sair para ir ao banheiro se tornar uma aventura. Ao amanhecer e com a chegada do sol tudo fica mais tolerável, apesar da baixa temperatura. Era hora de encarar o principal trecho da travessia da serra.

Mapa topográfico do treco Açu x Pedra do Sino (clique para ampliar)


O tempo médio de travessia do segundo dia é parecido com o do primeiro


ENTRANDO EM ÁREA DE ATENÇÃO

Até chegar no Açu a trilha é bem demarcada, com pequenos trechos de exceção. A partir da área do abrigo no Açu, é mais raro encontrar trilhas de terra (a maioria são grandes lajes de pedra) o que dificulta o deslocamento. Além disso, esse trecho possui locais que exige maior técnica para ultrapassar, mas nada impossível de encarar. 


Assim que o sol chega é hora da partida para atravessar o principal trecho


Os totens ou placas são quase inexistentes por ali. Em dias de chuva ou neblina não é recomendável se arriscar naquelas pedras, por isso a melhor época para fazer a travessia são os meses de pouca chuva, em sua maioria no inverno fluminense. Talvez por causa dessas restrições a travessia da Serra dos Órgãos é tão mística e temida pela maioria das pessoas. 

Ao levantar acampamento para seguir o caminho, meu amigo e eu conhecemos um roraimense casado com uma moradora de Teresópolis. Ele havia ido até ao Açu passar alguns dias acampando como fizera em outras ocasiões e quando soube que iríamos encarar a travessia perguntou se podia nos acompanhar. Disse que sempre quis fazer aquilo mas não arriscava sozinho. 


Um dos raros totens colocado no início da trilha a partir do Açu


Agora, estando em trio, iniciamos um descidão de laje de pedra com uma bela paisagem pela frente. Depois da descida ao lado de um abismo começa uma subida que, a partir do meio fica bastante íngreme, se tornado uma "escalaminhada", uma mistura de escalada com caminhada. Ao chegar a trilha segue pela crista desta elevação chamada Morro do Marco (nome derivado de um antigo totem que foi destruído). A descida desse morro é a parte mais complicada e que a maioria das pessoas se perde!

Para variar, me perdi também nesse trecho. Como eu tinha um ponto do meu próximo destino no GPS, tentei achar a trilha seguindo aquela direção, foi então que desci na marra uma laje e acabei caindo nas pedras e me ralando. Nada grave, apenas uns rasgos na minha roupa e uns arranhões na máquina fotográfica que caiu também.

Resultado de uma queda na tentativa de atravancar em direção a trilha


A dica para não perder a trilha é, quando estiver no Morro do Marco, seguir em direção ao Dedo de Deus. Não descer a crista à direita e não entrar na mata à esquerda. É só descer beirando os arbustos da esquerda até achar a trilha lá embaixo. Seguimos pela trilha até entrar numa mata curta onde tem um riacho com água.

A trilha passa por um bambuzal


Água é o que não falta por aqui


MORRO DA LUVA

O próximo obstáculo é o Morro da Luva que é a segunda montanha mais alta da Serra dos Órgãos, com 2.263 metros de altitude. A subida começa íngreme e existem algumas lajes de pedra que podem fazer a trilha ser perdida. O segredo é sempre atentar para a trilha no lado esquerdo, até a descida. Chegando no vale ao pé do morro, num local conhecido como Geladeira ou Vale da Luva. Ali era um antigo local para acampamento que não é mais permitido. Depois, vem outra subida íngreme até chegar no topo da Luva e dar de cara com a bela paisagem da Pedra do Sino e do Garrafão.

Vento forte na subida do Morro da Luva


Fissuras entre as lajes mostram a geologia do lugar


A bela paisagem formada pela Pedra do Sino e o Garrafão


A descida da Luva é repleta de lajes de pedra, é necessário ter atenção para não perder a trilha neste local. Ao atravessar as lajes se chega num corrimão artificial que ajuda na segurança da passagem. Se passa sobre o riacho e a Cachoeirinha, mais um ponto de água corrente. Depois de cruzar pelo terreno acidentado, duas pontes facilitam a chegada no próximo desafio: o Elevador.


Duas pontes de madeira levam até o "Elevador"


O ELEVADOR

No meio da travessia da Serra dos Órgãos encontramos um "moderno" elevador para facilitar a escalada. São vergalhões fixados no paredão que formam uma escada. Para subir basta usar as mãos e chapar os pés na rocha em aderência, não é tão difícil pois a parede tem uma inclinação.

Vergalhões em forma de degraus ajudam a subida do paredão


Apesar de não ser tão difícil, a subida é um pouco alta


DINOSSAURO

Depois de passar pelo Elevador e seguir pela trilha que tende à esquerda. Depois de umas subidas, decidas e mais subidas, se chega na descida mais íngreme que pode ser bem perigosa com a pedra molhada. Existe até um grampo fixado na pedra para ajudar na descida com o uso de cordas. Depois disso mais uma subida, agora mais suave, até a crista do Morro do Dinossauro.

Rampa íngreme requer na descida


Observe os grampos e a trilha branca na pedra formada pela quebra de cristais


VALE DAS ANTAS

De cima do Dinossauro a trilha segue entre lajes de pedras e mata, sendo um pouco confusa no início mas depois bem visível pelas pedras. A trilha desce em zigue zague até ficar bem nítida e chegar no Vale das Antas. Mais um local usado para acampamento e que hoje em dia não é mais permitido. Possui um rio que é nascente do Rio Soberbo e é ideal para parar e dar uma descansada.  Paramos para fazer uma refeição e encher abastecer o estoque de água, até voltarmos para a trilha atravessando o rio por uma ponte.

Depois do Vale das Antas a trilha sobe até um dos pontos mais bonitos


PEDRA DA BALEIA

Depois de uma subida tranquila, passando por uma parte baixa de lama preta que, como não havia chovido, não estava difícil de passar, finalmente se chega na exótica Pedra da Baleia que te faz se imaginar andando sobre uma baleia pelo formato único. A vista lá de cima é sensacional em 360 graus, com destaque para o Garrafão, uma formação rochosa peculiar.

A pedra que lembra o dorso de uma baleia


A vista em volta também é bela pela vegetação nativa


Bromélias no paredão de pedra


A trilha segue pelo alto da Pedra da Baleia


GARRAFÃO

Depois de passar pela Baleia a trilha segue subindo até chegar beirando um abismo entre os paredões do Garrafão e da Pedra do Sino, uma das vistas mais bonitas de toda a travessia na minha opinião.  É hora de curtir a paisagem e tirar fotos de vários ângulos desses paredões que com certeza você já teria tirado desde longe.

A trilha beira um abismo de paisagens de pedra e com o Rio de Janeiro ao fundo


O Garrafão não parece uma grande escultura de ET?


VALE DOS 7 ECOS

Depois de paisagens impressionantes que servem de colírio e relaxamento, a adrenalina está de volta! Começa uma descida para a única passagem para se chegar no topo da Pedra do Sino, conhecida como o Vale dos 7 Ecos. Neste caminho encontramos um personagem excêntrico, meio hippie, e descobrimos que ele era o responsável pelo Abrigo 4 do acampamento da Pedra do Sino. Ele estava entediado e foi dar "uma voltinha" pelas montanhas. Nos orientou bem sobre o caminho para chegar lá.

O rapaz voluntário que cuidava do Abrigo 4 


Logo chega a primeira provação, uma descida conhecida como Mergulho. Na minha opinião foi o trecho mais difícil. É uma descida de uns 3 metros com um vão. Não há apoios para desescalar e é preciso jogar primeiro as mochilas para tentar descer. Existe ainda um grampo para ajudar na descida com corda, mas mesmo assim achei complicado. Primeiro desceu o rapaz de Roraima que conhecemos, ele tentou desescalar pelo vão e caiu. Saiu deslizando pelas rochas até embaixo mas não se machucou. Depois fui eu, tentei desescalar até onde eu pude, mas não encontrei mais apoio, foi então que vi uma rocha do outro lado do vão e saltei! Ao cair nela foi mais fácil desescalar. Aproveitei e usei meu ombro de escada para meu amigo conseguir descer este último lance.

Descida do Vale dos 7 Ecos


O CAVALINHO

Ao vencer o desafio do Mergulho, já na parte baixa do Vale dos 7 Ecos, começa então uma escalaminhada cansativa até o topo do Sino. No alto dessa subida está o lance mais temido de todos: O Cavalinho. Não achei tão complicado quanto pensava, mas requer uma certa técnica para passar. O Cavalinho é uma pedra que deixa a pessoa exposta à altura e difícil de passar com mochila. O segredo é jogar a mochila (ou passar para o outro, se estiver acompanhado), apoiar o pé esquerdo na pedra embaixo e com o direito "montar" na pedra do Cavalinho (veja as fotos). Ao vencer mais esta prova existe uma escada que leva à trilha para o Sino.

Primeiro: Subir o equipamento


Segundo: Perna esquerda embaixo e a direita alcança acima da pedra


Terceiro: Transposição como se estivesse montado à cavalo


Vista do vale de cima do Cavalinho


Depois do Cavalinho, uma escada para facilitar as coisas


A PEDRA DO SINO

A trilha segue pela pedra do Sino e, de lá, pode-se descer direto para o abrigo ou subir até o cume. Escolhi a segunda opção para ter uma vista privilegiada de Teresópolis e também da própria cidade do Rio de Janeiro.

A trilha para o cume do Sino


Vista panorâmica da cidade de Teresópolis


Outra pedra de formato curioso, como um rosto de olhos fechados


A Pedra do Sino é o ponto mais alto da Serra dos Órgãos com 2.275 metros de altitude. O primeiro registro de alguém ter alcançado sua parte mais alta foi em 1841 com o escocês George Gardner. Para ficar no cume foi preciso colocar novamente o casaco por causa do forte vento que causa sensação térmica baixa. 

Vento forte no topo da Serra dos Órgãos


Para onde se olha tem paisagem bonita


Além do visual, o cume ainda tem um marco de pedra fixado. Nada melhor do que sentar e meditar perante aquela paisagem, mas como a noite se aproximava e a temperatura caía, segui meu destino para o Abrigo 4, localizado ao descer o cume. No próximo post eu falo mais sobre esse abrigo. Enfim, o segundo dia cheio de adrenalina se acaba e o momento é de juntar energia para o trecho final do percurso.

Minutos de meditação nas montanhas


Ainda fui explorar outros pontos da Pedra do Sino


Segundo dia vencendo montanhas e vales concluído com sucesso



MEU ROTEIRO

Anterior: DE PETRÓPOLIS AO AÇU (DIA 1)

Roteiro Completo: TRAVESSIA DA SERRA DOS ÓRGÃOS

Próximo: DA PEDRA DO SINO A TERESÓPOLIS (DIA 3)



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Sobre o autor
Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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