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Chapada Diamantina: Travessia do Parque (Parte 1) - Vale do Pati

Início da travessia do Parque Nacional sem guia em 3 dias 


Tradicionalmente, a maioria das pessoas que fazem a travessia ao Parque Nacional da Chapada Diamantina a realiza pelo Vale do Pati até chegar na cidade de Andaraí. Algumas iniciam em Guiné e outras do local que eu me encontrava até o momento, o Vale do Capão

A travessia do vale do Pati é considerada uma das mais bonitas do Brasil, então não podia faltar no meu roteiro, porém, como sempre, eu não gosto de fazer as coisas do jeito que a maioria das pessoas faz, então montei minha própria travessia: Cruzaria do Vale do Capão até o Vale do Pati mas, ao invés de seguir o caminho de Andaraí, seguiria ao sul, até a cidade de Mucugê que pertencia ao meu roteiro. 


Outra questão "polêmica" era querer atravessar o parque sozinho, sem guia. As trilhas não possuem marcações, sinalizações ou mesmo identificação, mais difícil ainda para quem estava lá pela primeira vez. Além disso, não existem estradas para veículos dentro da área do parque, dificultando mais ainda a realização de algum resgate. Não podemos esquecer que a natureza lá é quase intocável e que o cerrado é lugar de serpentes peçonhentas.


Apesar de todos esse "poréns", me equipei com tudo que seria necessário para cumprir a missão: Comida para mais de 3 dias, pastilhas de purificação de água, canivete, etc., só que o mais importante era o GPS e foi com ele que eu venci os perrengues que ocorreram até chegar no meu objetivo.


PRIMEIRO PASSO: CHEGAR NO VILAREJO DE BOMBA

O início da trilha do Parque Nacional está no Vilarejo de Bomba, no final do Vale do Pati. Como eu estava acampando na Vila de Caeté-Açu, acordei cedo com uma chuva fina e às 7h40 iniciei a caminhada por mais de 6 Km pela estrada de terra até aquele vilarejo. 

6 Km de estrada que segue pelo Vale do Capão


Muita gente (quase todos) exclui essa parte da travessia, fazendo o trecho de carro ou mototáxi. Eu como já estava no clima segui com minha mochila pela estrada e pude presenciar a vida cotidiana e coisas exóticas daquele lugar. Para mim, já havia começado a aventura.

Cercas de arame feiras de lápis de cor?


Uma danceteria padrão "Ibiza" no meio do nada


Um lugar (provavelmente um sítio) chamado Shangri-la


Uma coisa interessante que observei é o cuidado promovido pelo grupo de proteção ambiental em conscientizar a população a colocar o lixo apena no "girau". Isso mantem o lixo sem contato com as poças de água e evita poluir o solo ou mesmo os rios. 

Girau construído para evitar que o lixo contamine o solo


Quanto mais distante da Vila de Caeté-Açu, menos casas e mais natureza


Um rio de águas escuras já dando uma amostra da beleza que está por vir


Uma casinha isolada no alto da montanha


VILAREJO DE BOMBA

Ás 09h20 eu chegava no Vilarejo de Bomba. Planejei tomar meu café da manhã naquele que era o último contato com a civilização nos próximos 3 dias mas acabei me dando mal, não se via um comércio ou venda de lanches abertos. Acho que imaginei que Bomba fosse algo maior, mas é um lugar bem pequeno. Antes tivesse tomado meu café da manhã em Caeté-Açu!

Seguindo pela esquerda está o primeiro rio que se atravessa para iniciar a trilha


Como eu tinha o trajeto da trilha no GPS (só até o Cachoeirão), conferi se estava tudo certo e iniciei a caminhada a partir dali. Foi então que encontrei um casal curitibano que também estava iniciando a jornada, era o Paulo e a Amanda. Apesar de ser a primeira trilha longa da vida deles e estarem sem guia, estavam muito bem preparados com mapas e informações detalhadas. Me perguntaram se eu ia fazer a travessia e se podiam me acompanhar, foi então que juntamos forças e partimos.

Iniciei a caminhada com o casal de Curitiba que também ia tentar a sorte sem guia


O início da trilha está, oficialmente, depois de se atravessar dois rios a partir de Bomba. Para passar é só ir pulando de pedra em pedra. Vai parecer difícil no começo mas depois de tantas pedras pelo caminho fica fácil. Antes de sair atravessando é bom prestar a atenção no melhor caminho.


Um dos dois primeiros rios a se atravessar antes do início oficial da trilha


Placa de orientações que marca o início da travessia Capão x Pati


O início da trilha é marcado por muita subida. Em certo ponto haverá uma bifurcação e o caminho é para a direita, em direção ao Rio Preto (sudoeste). A trilha passa por um trecho de mata fechada onde cruza por uma porteira fechada com um corredor lateral. E dá-lhe subida!

Trilha inicial e sua vegetação de cerrado


O corredor de passagem da porteira tem no piso um buraco para impedir a passagem de gado


Depois de muita subida a paisagem já começa a dar seu show. Primeiramente a vista do próprio Vale do Capão que vai ficando para trás. É possível observar algumas casas, é a despedida da civilização. Depois do trecho de subidas a terra começa a ficar mais plana e aparecer as milhares de pedras de quartzo no chão que vão ser encontradas por um longo trecho.

O Vale do Capão vai ficando para trás numa bela vista panorâmica


Tudo começa a mudar, a começar pelo solo exótico de pedras formado pelas águas


Caminho ao meio das pedras de quartzo


Dizem que a energia das montanhas se concentra nessas pedras


A terra fica plana e começam os gerais, aquela vegetação rasteira que se espalha pelo platô. A trilha do Vale do Pati segue pela parte alta do parque. Em certo trecho deste gerais existe uma bifurcação, o caminho continua sendo pela direita.

A vegetação rasteira contrasta com as montanhas e combina


A zuera sempre presente!


Longo trecho de vegetação baixa e paredões de rocha


Um pouco antes desse trecho, a trilha vem seguindo paralela ao paredão, depois bifurca à direita


Anda, anda! Para passar o tempo tranquilo, eu ia ouvindo meu mp3 player com repertório de Enya para combinar com a bela paisagem que eu ia curtindo pela frente. Até encontrei rastros de algum desafortunado cuja a bota não resistiu à dureza da Chapada Diamantina. Em certos trechos é possível perceber marcas de queimada, provavelmente ocorridas em épocas mais secas.

Alguém andou tanto que terminou descalço!


Marcas de campos que sofreram com incêndios


E a natureza sempre arruma um meio de sobreviver


O RANCHO

O terreno começa a baixar em direção ao curso d´água que está por vir. A vegetação começa a ficar mais alta também. Isso é sinal de que o "rancho" se aproxima. Esse é o nome dado a uma pequena construção feita pelo homem próximo a uma cachoeira e que é usado para pernoite daqueles que realizam a travessia. Antes da descida até a cachoeira existe outra bifurcação, o caminho da esquerda desce para o rancho e a outra trilha desvia.

A vegetação vai se misturando com o cerrado mas continua bela


Na descida até o rio tem uma bifurcação, a da esquerda desce para o rancho e a da direita segue direto


 Este é o "rancho"


Possível local de pernoite para os viajantes


Parei para descanso em frente à cachoeira do rancho. Já eram 13h00 e eu ainda não havia comido nada, nem o café da manhã. Fiz o meu primeiro almoço com a comida que levei. Enquanto eu deitei no chão para esticar as costas depois de carregar a mochila direto desde 07h40 da manhã, chegou um grupo com o guia. Eles também estavam indo para a Igrejinha que seria meu primeiro ponto de pernoite. Foi ali que conheci aquele grupo. O guia explicou que aquela água escura era potável apesar da cor, então aproveitei para encher minha garrafa numa parte de água corrente.

Cachoeira em frente ao rancho apesar de escura é limpa para nadar


Água escura mas potável


LADEIRA DO QUEBRA BUNDA

Depois do rancho em que se ter atenção para não perder a trilha. Ela var terminar na ladeira do Quebra Bunda que permite a passagem entre os Gerais do Vieira e do Rio Preto. Foi calçada na década de 1920 para facilitar o acesso direto do gado vindo do Guiné. Cruzando os gerais desde o Esbarrancado, a trilha do gado cruzava o Rio Preto pela Ponte do Arrodeio construída pelos prefeitos de Mucugê na época: Fulgêncio Teixeira e Tacio Matos.

 , .

O Quebra Bunda é uma escadaria de pedras que dá acesso ao gerais do Rio Preto


Lá em cima encontramos dois rapazes que estavam acampados na Igrejinha curtindo a paisagem


De cima do Quebra Bunda se tem um maravilhoso visual sobre o Gerais do Vieira


Enfim, a hora de encarar a melhor parte da trilha


A PARTE MAIS BONITA DA TRAVESSIA

É na trilha dos gerais do Rio Preto que se passa pela parte mais bonita da travessia. A trilha segue pela serra e permite ver de posição privilegiada as formações rochosas do Vale do Pati, sempre à esquerda. Os morros conhecidos como tepui fazem o cartão postal da Chapada. 

A travessia ao Vale do Pati é considerada uma das mais bonitas do Brasil, por que será?


Trekking do Pati com mata atlântica, gerais (cerrado), campo rupestre, grutas, cânions, abismos, cachoeiras


Formação rochosa denominada "tepui"


Momento "refrigere e paz"


O turismo afasta os nativos de atividades impactantes como agricultura, pecuária e o extrativismo ilegal de palmito e madeira


O caminho segue até chegar no "paredão branco" que é o sinal que está chegando o ponto de descida até a Igrejinha que fica no vale, na região de Pati do Alto. A trilha dos gerais vai continuando até o sul do parque (a mesma trilha que eu teria que continuar no dia seguinte). 

O paredão branco


Atualmente vivem menos de 40 moradores fixos no Vale do Pati que oferecem suas casas para pernoite dos viajantes


DESCIDA PARA A IGREJINHA

A trilha pelos gerais chega num muro de pedras e, depois deste, a trilha terá uma bifurcação para a esquerda onde há um mirante do Vale do Pati. À direita do mirante está a trilha que leva à descida super íngreme até o Pati do Alto onde está localizada a Igrejinha, local de pernoite que eu almejava. 

A trilha ultrapassa um muro de pedras 


No ponto de descida tem um mirante fabuloso


Ao parar no mirante o trio que estava sendo guiado acabou se juntando para admirar a paisagem. Preocupados com o horário pois o sol já estava se pondo, todos seguira juntos e eu fiquei sozinho no mirante tirando fotos, foi então que o clima ficou tenso... Ouvi um grito chamando pelo meu nome. Guardei a máquina fotográfica e acelerei para alcançá-los, foi então que eu descobri o que tinha acontecido. O guia caminhava na frente quando um cobra cascavel armou o bote próximo da trilha, Ele parou e aos poucos a cobra assustada foi se afastando, logo me chamaram para eu não ser pego desprevenido.

Descida pelo paredão de pedras


O grupo desceu junto pelas pedras com certa dificuldade


Depois de feita a decida existe três trilhas a se seguir, uma para a direita, uma para a frente e uma para a esquerda. A da direita vai subindo a serra até voltar para a trilha que vai para Mucugê. A do meio é a que vai para a casa dos nativos e para Andaraí. A trilha da Igrejinha é a da esquerda,


IGREJINHA

A Igrejinha ou Ruinha como aquele local é conhecido, serve de ponto de acampamento estratégico no Vale do Pati e é ponto de partida para várias rotas, seja Cachoeirão, Morro do Castelo, Cachoeira do Calixto, ou continuar a travessias direção Andaraí ou Mucugê, como era o meu caso. Neste dia, no total (do Vale do Capão até a Igrejinha), eu havia caminhado 23,5 Km.

Desde o Rancho são cerca de 9,6 Km para chegar na área da Ruinha da Igrejinha


A Ruinha é uma área de apoio habitada por alguns nativos. Existe um mercadinho onde é possível comprar ou repor vários produtos, bem mais caros que o normal. Eles também vendem refeição, mas somente se forem avisados com antecedência para fazer a quantidade de comida certa. Como esse contato costuma ser feito através de agências, eu tive que me virar com minha própria comida. Para o pernoite é cobrado os seguintes valores (dezembro 2014): Cama é R$ 30 / Dormir de isolante no chão de um abrigo é R$ 20 / Montar barraca é R$ 15, esta última foi minha opção. Existe cozinha para uso dos viajantes e banheiro com banho frio. Todo o lixo não orgânico tem que ser levado na mochila.

A igreja que dá o nome a este local


No final da noite surgiu um papo com o casal hippie sobre os males do "capitalismo" nas cidades da chapada. Ao contrário dos discursos infundados da chamada "esquerda caviar", dialogamos sobre o efeito de um aeroporto próximo a Chapada Diamantina, como ocorre em Lençóis, que quebra a atmosfera simples, hippie, e atrai o turismo de massa. Isso vai afetando a busca por produtos de grandes marcas. Até foi cogitada ironicamente a possibilidade de, no futuro, abrir um McDonalds na área da Igrejinha. Como eu costumo dizer, o socialismo é um teoria que só funciona numa sociedade hippie. Após o papo fui descansar para a próxima jornada ao amanhecer.






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Sobre o autor

Sobre o autor
Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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